Sobre a questão da doutrinação nas escolas

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Sobre a questão da doutrinação nas escolas

Doutrinação Humana

A pior doutrinação — na verdade, uma programação — é aquela que incute a noção de obediência. A simples existência da escola — ou do processo de escolarização da sociedade — já implica o carregamento, no paciente ensinado (quer dizer, no aluno), desse programa-escravo.

Mas a doutrinação escolar baseada na ideologia marxista — ou seja, na ideia de que a sociedade é palco de uma luta permanente entre duas classes — é também um problema gravíssimo, que leva a uma deficiência cognitiva e pode acarretar uma lesão moral. Sim, como já comentamos em outro texto, há mesmo um problema moral nessa metafísica de classes.

Recentemente, Luiz Felipe Pondé, no artigo “A história do Brasil do PT” (Folha de São Paulo, 18/04/2006), diagnosticou corretamente o problema que vivemos no Brasil. Segundo ele:

“A “batalha do impeachment” é a ponta do iceberg de um problema maior, problema este que transcende em muito o cenário mais imediato da crise política brasileira e que independe do destino do impeachment e de sua personagem tragicômica Dilma.

Mesmo após o teatro do impeachment, a história do Brasil narrada pelo PT continuará a ser escrita e ensinada em sala de aula. Seus filhos e netos continuarão a ser educados por professores que ensinarão esta história. Esta história foi criada pelo PT e pelos grupos que orbitaram ao redor do processo que criou o PT ao longo e após a ditadura. Este processo continuará a existir. A “inteligência” brasileira é escrava da esquerda e nada disso vai mudar em breve. Quem ousar nesse mundo da “inteligência” romper com a esquerda, perde “networking”.

Ao afirmar que a “história não perdoa as violências contra a democracia”, José Eduardo Cardozo tem razão num sentido muito preciso. O sentido verdadeiro da fala dos petistas sobre a história não perdoar os golpes contra a democracia é que quem escreve os livros de história no Brasil, e quem ensina História em sala de aula, e quem discorre sobre política e sociedade em sala de aula, contará a história que o PT está escrevendo. Se você não acredita no que digo é porque você é mal informado.

O PT e associados são os únicos agentes na construção de uma cultura sobre o Brasil. Só a esquerda tem uma “teoria do Brasil” e uma historiografia.

Esta construção passa por uma sólida rede de pesquisadores (as vezes, mesmo financiada por grandes bancos nacionais), professores universitários, professores e coordenadores de escolas, psicanalistas, funcionários públicos qualificados, agentes culturais, artistas, jornalistas, cineastas, produtores de audiovisual, diretores e atores de teatro, sindicatos, padres, afora, claro, os jovens que no futuro exercerão essas profissões. O domínio cultural absoluto da esquerda no Brasil deverá durar, no mínimo, mais 50 anos.

Erra quem pensa que o PT desaparecerá. O do Lula, provavelmente, sim, mas o PT como “agenda socialista do Brasil” só cresce. O materialismo dialético marxista, mesmo que aguado e vagabundo, com pitadas de Adorno, Foucault e Bourdieu, continuará formando aqueles que produzem educação, arte e cultura no país. Basta ver a adesão da camada “letrada” do país ao combate ao impeachment ao longo dos últimos meses.

Ao lado dessa articulada rede de agentes produtores de pensamento e ação política organizada, que caracteriza a esquerda brasileira, inexiste praticamente opção “liberal” (não vou entrar muito no mérito do conceito aqui, nem usar termos malditos como “direita” que deixam a esquerda com água na boca)”.

Transcrevemos acima apenas a primeira metade do artigo de Pondé. Na segunda ele comete o equívoco de colocar como alternativa única ao marxismo o pensamento liberal. Ora, pode-se recusar a ideologia marxista sem abraçar a ideologia liberal. A grande dificuldade dos liberais é entender a diferença entre dois tipos de agenciamento: sociedade e mercado. O problema está nos pressupostos antropológicos: nem com reza brava entra na cabeça deles a diferença entre indivíduo (o ser biológico da espécie Homo Sapiens, portador do genoma humano) e pessoa (o ser humano propriamente dito como complexo biológico-cultural, quer dizer, o emaranhado social). Em outras palavras: eles não conseguem entender o que é rede social. Já a grande dificuldade dos estatistas (marxistas, incorretamente designados como socialistas) é entender a diferença entre dois tipos de agenciamento: sociedade e Estado. O problema de fundo, entretanto, é exatamente o mesmo dos liberais. Para ambos a sociedade é um epifenômeno, não subsiste por si mesma, não é uma forma de agenciamento autônoma. Mas este é outro assunto (ou não é, mas não será espichado aqui).

Voltemos ao Brasil. Nesta semana (20/04/2016), a Assembléia Legislativa de Alagoas aprovou por unanimidade o projeto que trata do Programa Escola Livre de autoria do deputado Ricardo Nezinho. A nova lei estadual aprovada diz o seguinte em seus artigos 2 e 3:

“Art. 2º É vedada a prática de doutrinação política e ideológica em sala de aula, bem como a veiculação, em disciplina obrigatória, de conteúdos que possam induzir aos alunos a um único pensamento religioso, político ou ideológico.

§1º Tratando-se de disciplina facultativa em que sejam veiculados os conteúdos referidos na parte final do caput deste artigo, a frequência dos estudantes dependerá de prévia e expressa autorização dos seus pais ou responsáveis.

§2º As escolas confessionais, cujas práticas educativas sejam orientadas por concepções, princípios e valores morais, religiosos ou ideológicos, deverão constar expressamente no contrato de prestação de serviços educacionais, documento este que será imprescindível para o ato da matrícula, sendo a assinatura deste a autorização expressa dos pais ou responsáveis pelo aluno para veiculação de conteúdos identificados como os referidos princípios, valores e concepções.

§3º Para os fins do disposto nos Arts. 1º e 2º deste artigo, as escolas confessionais deverão apresentar e entregar aos pais ou responsáveis pelos estudantes, material informativo que possibilite o conhecimento dos temas ministrados e dos enfoques adotados.

Art. 3º No exercício de suas funções, o professor:

I — não abusará da inexperiência, da falta de conhecimento ou da imaturidade dos alunos, com o objetivo de cooptá-los para qualquer tipo de corrente específica de religião, ideologia ou político-partidária;

II — não favorecerá nem prejudicará os alunos em razão de suas convicções políticas, ideológicas, morais ou religiosas, ou da falta delas;

III — não fará propaganda religiosa, ideológica ou político-partidária em sala de aula nem incitará seus alunos a participar de manifestações, atos públicos ou passeatas;

IV — ao tratar de questões políticas, sócio-culturais e econômicas, apresentará aos alunos, de forma justa, com a mesma profundidade e seriedade, as principais versões, teorias, opiniões e perspectivas das várias concorrentes a respeito, concordando ou não com elas;

V — salvo nas escolas confessionais, deverá abster-se de introduzir, em disciplina ou atividade obrigatória, conteúdos que possam estar em conflito com os princípios desta lei”.

A lei é interessante. A iniciativa é corajosa. Ainda que, na prática, ninguém ficará realmente responsável pela aplicação dessa lei,  ela abre um campo de legalidade e legitimidade — até então inexistentes — para questionamentos democráticos. Por isso a nova lei é importante, mais como uma referência cultural do que propriamente como uma fonte de sanções (aliás, não há na lei sanções específicas além daquelas que já se aplicam a todo funcionalismo). O difícil é saber quem vai definir o que é doutrinação e o que não é e como fará isso. Uma Secretaria Estadual de Educação (ou mesmo um Ministério da Educação, no caso de ser aprovada uma lei semelhante de âmbito normativo federal) terão imensas dificuldades de interpretar e aplicar a lei.

Voltemos agora à Pondé. Ele termina seu artigo (já citado aqui, no trecho transcrito acima) dizendo que “não importa quantas Dilmas destruírem o Brasil, pois elas serão produzidas em série. A nova Dilma está sentada ao lado da sua filha na escolinha”. E isso não se pode evitar na base da lei, assim como não se pode evitar que as pessoas sejam programadas para obedecer em qualquer escola, com ou sem doutrinação marxista (embora uma madrassa estatista seja muito pior do que uma Summerhill School).

Como uma lei não funcionará e como não se pode esperar que, no curto prazo, seja formada uma nova camada de professores das áreas de ciências humanas (sobretudo de história), desvencilhada da ideologia marxista, e como, ainda, mesmo que isso fosse possível, a escola continuaria doutrinando (incutindo a obediência e preparando o aluno para ser uma peça da máquina infernal – ou da Matrix) a saída parece ser as novas formas e os novos ambientes não-escolares de aprendizagem (ou de educação sem ensino) que estão surgindo na sociedade-em-rede.

Mesmo porque, fugir da doutrinação marxista e cair na programação escolar (que é sempre, repita-se, uma programação para a obediência e para a adequação à sociedade de controle) não resolve realmente o problema, de vez que um dos principais ambientes de reprodução da sociedade hierárquica é a escola — e, como dizia Ivan Illich (1970), “as escolas são fundamentalmente semelhantes em todos os países, sejam fascistas, democráticos ou socialistas, pequenos ou grandes, ricos ou pobres. Esta identidade do sistema escolar nos força a reconhecer a profunda identidade universal do mito, o modo de produção e o método de controle social, apesar da grande variedade de mitologias em que o mito é expresso”. Vale a pena ler o Deschooling Society de Illich.

Não queremos fugir da doutrinação marxista porque não gostamos da barba de Marx ou do modo como ele se vestia. O marxismo – como qualquer estatismo – uma vez ensaiado, transforma a sociedade em dominium do Estado, despessoaliza os seres humanos (quer dizer, desumaniza-os) enquadrando-os em estruturas hierárquicas regidas por modos de regulação autocráticos. E está baseado nos mesmos pressupostos da civilização patriarcal, que se expressam por meio de ideias-implante (rotinas do programa básico de controle), algumas próprias do marxismo e outras compartilhadas por visões conservadoras não-marxistas e, inclusive, anti-comunistas, dentre as quais cabe destacar:

1 – A igualdade como ideal supremo (e como pré-condição para a liberdade); ou a ideia de que não pode haver (verdadeira) liberdade sem (ou até que se alcance a perfeita) igualdade.

2 – A abundância como ideal supremo (que, para ser alcançado, exige a politização da economia como administração da escassez, em geral artificialmente introduzida).

3 – A utopia (qualquer utopia) como modelo a ser alcançado no futuro (e que, para ser alcançada, exige algum tipo de sacrifício ou de restrição às liberdades no presente).

4 – O esforço para consertar a natureza, a sociedade ou o ser humano (que teriam vindo com alguma espécie de “defeito de fábrica”).

5 – A ideia de que existe uma sociedade igual para colocar no lugar da sociedade desigual (e de que essa sociedade igual estaria em alguma espécie de mundo paralelo pronta para ser trazida – ou realizada – a partir das contradições da sociedade desigual, elidindo a evidência de que a sociedade igual é somente o conjunto das relações igualitárias que se traçam aqui e agora por meio de atos singulares e precários).

6 – A ideia de que existe uma História (assim mesmo, com H maiúsculo) e ela tem leis (que podem ser conhecidas por quem tem a teoria e o método corretos de interpretação da realidade).

7 – A ideia de que a superestrutura da sociedade (a política, a cultura etc.) é determinada em última instância pela sua infraestrutura econômica.

8 – A ideia de que o ser humano é inerentemente (ou por natureza) competitivo e de que as pessoas se movem buscando sempre maximizar a satisfação de seus interesses (que são, ao fim e ao cabo, egotistas).

9 – A ideia de que não é possível mobilizar a ação coletiva a não ser a partir de lideranças destacadas.

10 – A ideia de que não é possível organizar nada sem (uma boa dose de) hierarquia.

E, além destas, as ideias conformes a comportamentos guerreiros, tomados como organizadores do cosmos social:

11 – A separação nós x eles (e todas as separações decorrentes dessa separação primordial: bem x mal, explorados x exploradores, povo x elites, esquerda x direita, socialistas x liberais, fieis x infiéis de qualquer religião ou seita, nacionais x estrangeiros, leste x oeste, sul x norte, brancos x não-brancos, heterossexuais x homossexuais etc.)

12 – A ideia e a prática da política como arte da guerra, ou como continuação da guerra por outros meios (a fórmule-inverse de Clausewitz-Lenin).

13 – O culto do conflito e a guerra como instituição permanente (e como realidade inexorável, sobretudo a guerra não-ocorrida como guerra-quente ou conflito violento – como o é toda guerra – mas latente e eternamente presente nos períodos considerados de paz.

14 – A ideia e a prática de que governar é comandar (uma força, um contingente, um exército, um povo).

15 – A ideia de que a luta de classes é o motor da história.

16 – A ideia de que a violência é a parteira da história.

17 – A construção e manutenção de inimigos.

Portanto, do que se trata é de evitar que ideias como estas sejam inoculadas nas pessoas que são pacientes do ensino (seja por meio da doutrinação marxista ou não, posto que nas listas acima várias ideias são próprias do marxismo, mas outras, como a 8, a 9, a 10 e a 14, não: são comuns a qualquer comportamento político anti-democrático). Para tanto, a solução só pode ser radical. Tirem as crianças e os jovens da escola e da universidade e eles não sofrerão nenhum tipo de doutrinação: nem a infecção marxista, nem a programação para a obediência e para a reprodução da sociedade de controle (não, pelo menos, da parte da escola, ainda que a família, a igreja e outras organizações também façam isso).

 

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