Sobre a inevitabilidade do aprender e a impossibilidade do ensinar

Trechos do artigo O conhecer e o conhecimento de Luiz Antônio Andrade e Edson Pereira da Silva (2005) em Ciências & Cognição.

Sobre a inevitabilidade do aprender

Se o conhecer é a conduta adequada de um organismo em face de um contexto, o aprender é o comentário feito por um observador a respeito da mudança de conduta do organismo (que pode ser ele mesmo). Embora o aprender guarde uma certa similaridade com o conhecer, particularmente no que diz respeito à conduta de um organismo em face de um contexto, é possível fazer uma distinção entre um e o outro: no caso do aprender, há de se fazer referência ao intervalo de tempo em que ocorreu a mudança, mesmo se tal intervalo não for explícito no comentário do observador.

Seguindo essa linha de raciocínio, o aprendizado é o comentário de um observador sobre o resultado do processo de mudança da conduta de um organismo. Há de se ressaltar que o comentário do observador sobre o que ele conota como aprender (mudança) e aprendizado (resultado da mudança) implicam sempre um referencial comparativo entre a ocorrência de duas condutas distintas em, pelo menos, dois momentos (t1 e t2). Geralmente, a conduta do organismo observada em t2 é valorizada pelo observador, que a concebe como mais adequada ao contexto especificado. O sentido dessa valorização, de adequação ao contexto, não implica valores morais ou éticos, mas, sim, indicadores como rapidez, intensidade, eficácia, eficiência, refinamento e permanência. Se o que é aprendido é conservado pelo organismo, por meio de mecanismos recursivos, o observador pode referenciar a conduta aprendida e conservada como memória.

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Segue que o aprender acontece o tempo todo, como uma mudança contínua da conduta do organismo. É precisamente essa ação contínua de mudar de conduta do organismo que estamos afirmando como inevitável, pelo menos enquanto esse organismo estiver realizando a autopoiese, em acoplamento estrutural com o mundo.

Para fazer a distinção entre o conhecer e o aprender, lançamos mão de uma temporalidade, explícita ou implícita, no comentário do observador. Assim, o aprender é o conhecer na seta do tempo. Seguindo esse raciocínio podemos então afirmar que tanto o conhecer (sincrônico) quanto o aprender (diacrônico) são condições necessárias ao seguir vivendo. Ou seja, se “viver é conhecer”, seguir vivendo implica aprender, ou, dito de outra forma, vivendo e aprendendo, ou vice-versa.

 

Sobre a impossibilidade do ensinar

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O observador não pode confundir o que ocorre internamente no organismo (sua estrutura, sua fisiologia) com o que ele observa na relação – a conduta. Embora possamos fazer referências, na condição de observadores, ao domínio da fisiologia, é um equívoco confundir este primeiro domínio de descrição (fisiologia) com o que acontece no domínio relacional – a conduta (Maturana: 1997, 2001). Assim, é um equívoco apontar moléculas, células ou mesmo o sistema nervoso (domínio da fisiologia) como os responsáveis únicos pelas condutas apontadas por um observador, porquanto as condutas só podem ser descritas no domínio relacional a que o observador tem acesso.

Esse equívoco é muito comum entre os autores que buscam os fundamentos do conhecer na aparente linearidade de uma relação causal entre os objetos do mundo exterior e o organismo. Se o conhecer, dentro desse paradigma, é representar o mundo internamente, o aprender é concebido como um processo de ajustamento cada vez maior, ou cada vez melhor, do organismo a um mundo previamente estabelecido. Não é de se estranhar, portanto, que o senso comum e mesmo alguns educadores famosos, apoiados no quadro mental tradicional, concebam o ensinar como ação instrutiva, como uma ação de transmissão de conhecimentos ou, ainda, como a ação de transferência de informações de emissores para receptores.

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Contra o representacionismo [Maturana e Varela] afirmam: não há informação, ou seja, não existe a sequencia causal que vai do objeto exterior até a representação que dele fazemos. Contra o solipsismo, segundo o qual a única realidade é o eu e suas modificações subjetivas, dizem eles: não há a arbitrariedade da ausência do objeto, onde qualquer coisa parece possível. Logo, aceitar que o sistema nervoso opere com representações das coisas do mundo nos torna cegos à possibilidade de encará-lo como sistema operacionalmente fechado (clausura operacional). Por outro lado, aceitar que o sistema nervoso funcione completamente no vazio não explica a adequação da conduta do organismo ao seu contexto, ao seu mundo.

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Assim, não é possível ensinar, mas é possível aprender (mudanças condutuais no fluxo do viver) o que, no âmbito humano, depende da aceitação do outro como legítimo outro da relação. Diante da estranheza do impossível da comunicação entre sistemas fechados, a autopoiese cria uma explicação da possibilidade da vida cotidiana e do aprender humano.

Dessa forma, acreditamos que o ensino não existe, pelo menos da forma como ele é entendido pelo senso comum, como instrução, como transferência de informações, de comunicados. Existe um fechamento operacional do vivo, implicando com isto que o seu operar é sempre auto-referencial e, portanto, hermético às informações (Maturana: 1970). Isso não impede, no entanto, que sejamos estimulados pelo mundo exterior. Os estímulos de fora não podem especificar de forma instrutiva a estrutura interna do organismo como um todo, nem a sua condução – a relação do organismo com o meio (Maturana: 1970; Maturana e Varela: 1995).

Maturana, H. (1970). Biology of cognition.
Maturana, H. (1997). A ontologia da realidade. Belo Horizonte: UFMG.
Maturana, H. (2001). Cognição, ciência e vida cotidiana. Belo Horizonte, UFMG.
Maturana, H. e Varela, F. (1995). A árvore do conhecimento. Campinas, Psy II.

Para ler tudo: http://www.cienciasecognicao.org/pdf/v04/m31530.pdf

 

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