Sobre a inevitabilidade do aprender e a impossibilidade do ensinar

Um balanço das metodologias participativas de desenvolvimento local
28 de Maio de 2016
Novos mundos glocais
6 de junho de 2016

Sobre a inevitabilidade do aprender e a impossibilidade do ensinar

Trechos do artigo O conhecer e o conhecimento de Luiz Antônio Andrade e Edson Pereira da Silva (2005) em Ciências & Cognição.

Sobre a inevitabilidade do aprender

Se o conhecer é a conduta adequada de um organismo em face de um contexto, o aprender é o comentário feito por um observador a respeito da mudança de conduta do organismo (que pode ser ele mesmo). Embora o aprender guarde uma certa similaridade com o conhecer, particularmente no que diz respeito à conduta de um organismo em face de um contexto, é possível fazer uma distinção entre um e o outro: no caso do aprender, há de se fazer referência ao intervalo de tempo em que ocorreu a mudança, mesmo se tal intervalo não for explícito no comentário do observador.

Seguindo essa linha de raciocínio, o aprendizado é o comentário de um observador sobre o resultado do processo de mudança da conduta de um organismo. Há de se ressaltar que o comentário do observador sobre o que ele conota como aprender (mudança) e aprendizado (resultado da mudança) implicam sempre um referencial comparativo entre a ocorrência de duas condutas distintas em, pelo menos, dois momentos (t1 e t2). Geralmente, a conduta do organismo observada em t2 é valorizada pelo observador, que a concebe como mais adequada ao contexto especificado. O sentido dessa valorização, de adequação ao contexto, não implica valores morais ou éticos, mas, sim, indicadores como rapidez, intensidade, eficácia, eficiência, refinamento e permanência. Se o que é aprendido é conservado pelo organismo, por meio de mecanismos recursivos, o observador pode referenciar a conduta aprendida e conservada como memória.

[…]

Segue que o aprender acontece o tempo todo, como uma mudança contínua da conduta do organismo. É precisamente essa ação contínua de mudar de conduta do organismo que estamos afirmando como inevitável, pelo menos enquanto esse organismo estiver realizando a autopoiese, em acoplamento estrutural com o mundo.

Para fazer a distinção entre o conhecer e o aprender, lançamos mão de uma temporalidade, explícita ou implícita, no comentário do observador. Assim, o aprender é o conhecer na seta do tempo. Seguindo esse raciocínio podemos então afirmar que tanto o conhecer (sincrônico) quanto o aprender (diacrônico) são condições necessárias ao seguir vivendo. Ou seja, se “viver é conhecer”, seguir vivendo implica aprender, ou, dito de outra forma, vivendo e aprendendo, ou vice-versa.

 

Sobre a impossibilidade do ensinar

[…]

O observador não pode confundir o que ocorre internamente no organismo (sua estrutura, sua fisiologia) com o que ele observa na relação – a conduta. Embora possamos fazer referências, na condição de observadores, ao domínio da fisiologia, é um equívoco confundir este primeiro domínio de descrição (fisiologia) com o que acontece no domínio relacional – a conduta (Maturana: 1997, 2001). Assim, é um equívoco apontar moléculas, células ou mesmo o sistema nervoso (domínio da fisiologia) como os responsáveis únicos pelas condutas apontadas por um observador, porquanto as condutas só podem ser descritas no domínio relacional a que o observador tem acesso.

Esse equívoco é muito comum entre os autores que buscam os fundamentos do conhecer na aparente linearidade de uma relação causal entre os objetos do mundo exterior e o organismo. Se o conhecer, dentro desse paradigma, é representar o mundo internamente, o aprender é concebido como um processo de ajustamento cada vez maior, ou cada vez melhor, do organismo a um mundo previamente estabelecido. Não é de se estranhar, portanto, que o senso comum e mesmo alguns educadores famosos, apoiados no quadro mental tradicional, concebam o ensinar como ação instrutiva, como uma ação de transmissão de conhecimentos ou, ainda, como a ação de transferência de informações de emissores para receptores.

[…]

Contra o representacionismo [Maturana e Varela] afirmam: não há informação, ou seja, não existe a sequencia causal que vai do objeto exterior até a representação que dele fazemos. Contra o solipsismo, segundo o qual a única realidade é o eu e suas modificações subjetivas, dizem eles: não há a arbitrariedade da ausência do objeto, onde qualquer coisa parece possível. Logo, aceitar que o sistema nervoso opere com representações das coisas do mundo nos torna cegos à possibilidade de encará-lo como sistema operacionalmente fechado (clausura operacional). Por outro lado, aceitar que o sistema nervoso funcione completamente no vazio não explica a adequação da conduta do organismo ao seu contexto, ao seu mundo.

[…]

Assim, não é possível ensinar, mas é possível aprender (mudanças condutuais no fluxo do viver) o que, no âmbito humano, depende da aceitação do outro como legítimo outro da relação. Diante da estranheza do impossível da comunicação entre sistemas fechados, a autopoiese cria uma explicação da possibilidade da vida cotidiana e do aprender humano.

Dessa forma, acreditamos que o ensino não existe, pelo menos da forma como ele é entendido pelo senso comum, como instrução, como transferência de informações, de comunicados. Existe um fechamento operacional do vivo, implicando com isto que o seu operar é sempre auto-referencial e, portanto, hermético às informações (Maturana: 1970). Isso não impede, no entanto, que sejamos estimulados pelo mundo exterior. Os estímulos de fora não podem especificar de forma instrutiva a estrutura interna do organismo como um todo, nem a sua condução – a relação do organismo com o meio (Maturana: 1970; Maturana e Varela: 1995).

Maturana, H. (1970). Biology of cognition.
Maturana, H. (1997). A ontologia da realidade. Belo Horizonte: UFMG.
Maturana, H. (2001). Cognição, ciência e vida cotidiana. Belo Horizonte, UFMG.
Maturana, H. e Varela, F. (1995). A árvore do conhecimento. Campinas, Psy II.

Para ler tudo: http://www.cienciasecognicao.org/pdf/v04/m31530.pdf

DEVEMOS MELHORAR OU MUDAR A EDUCAÇÃO?

Para saber isso vamos conhecer as principais críticas feitas por pensadores da educação e refletir se nossas atividades estão sintonizadas com a mudança que está vindo, em especial agora que a sociedade está ficando mais interativa e com a inteligência artificial que vai se encarregar de muitas das tarefas que sempre foram executadas por nós. Mais um motivo para tentar descobrir quais são as características de uma aprendizagem tipicamente humana, que nunca poderá ser realizada por máquinas ou programas inteligentes.

Para participar de um curso voltado para a investigação destas questões, CLIQUE AQUI.