Compromisso de não doutrinação

Rigorosamente falando, hoje – em pleno dealbar de uma sociedade em rede – não seria mais necessário colocar os filhos na escola. Com noções básicas de português, rudimentos de inglês ou espanhol, matemática elementar, banda larga e, sobretudo, uma rede de amigos, qualquer criança no Brasil vai sozinha (ou melhor, vai junto com seus amigos).

Existem muitas alternativas melhores à escola, às vezes o homeschooling (que, porém, tem dois problemas quase incontornáveis: a ‘home’ – que via de regra representa uma estrutura autoritária do pai-patrão ou da mãe-patroa – e o… ‘schooling’), ou o communityschooling (que é melhor, mas continua com o problema do ‘schooling’), sendo preferível sempre o communityunschooling. Mas como é difícil encontrar ambientes de livre-aprendizagem onde deixar os filhos (sim, a palavra é horrível, mas o que muitos pais procuram é um lugar para deixar, no sentido exato de depositar, os filhos, para ficar livres deles durante um período do dia e poder fazer outras coisas: mais ou menos uma extensão da creche), mesmo os pais que já descobriram que aprendizagem sem-ensino é muito mais legal acabam colocando os filhos em alguma escola. O diabo é que, ao fazer isso, eles estão entregando seus filhos para serem adestrados em obediência e compliance (os principais assassinos da criatividade). Ou então, quando já estão mais crescidos, para serem doutrinados por ideologias estatistas, autoritárias e antidemocráticas.

Então, se você é um desses pais, que gostaria, pelo menos, que seus filhos não fossem doutrinados (posto que evitar o adestramento em obediência e compliance é impossível em qualquer ambiente onde haja separação entre um corpo docente e um corpo discente), sobretudo por professores de história e geografia que, desde a década de 1980, vêm infectando gerações de alunos no ensino médio com um conjunto de ideias-implante que os prepararão perfeitamente para serem analfabetos democráticos, talvez fosse bom tomar a seguinte iniciativa como condição para matricular seus filhos em uma escola. Obter dos professores a assinatura voluntária (não determinada pela direção da escola e facilmente driblável em sala de aula) ao seguinte compromisso.

COMPROMISSO DE NÃO DOUTRINAÇÃO

Eu, Fulano de Tal, me comprometo a não doutrinar o aluno Sicrano e os seus colegas – ou seja, a não infectar suas mentes ou colonizar suas consciências – com as seguintes ideias (que representam os 15 malwares básicos a ser evitados):

1 – A igualdade como ideal supremo (e como pré-condição para a liberdade); ou a ideia de que não pode haver (verdadeira) liberdade sem (ou até que se alcance a perfeita) igualdade.

2 – A abundância como ideal supremo (que, para ser alcançado, exige a politização da economia como administração da escassez, em geral artificialmente introduzida).

3 – A utopia (qualquer utopia) como modelo a ser alcançado no futuro (e que, para ser alcançada, exige algum tipo de sacrifício ou de restrição às liberdades no presente).

4 – O esforço para consertar a natureza, a sociedade ou o ser humano (que teriam vindo com alguma espécie de “defeito de fábrica”), sobretudo a partir do Estado, quando colocado nas mãos certas (quer dizer, nas mãos dos que professam as ideias desta lista).

5 – A ideia de que existe uma sociedade igual para colocar no lugar da sociedade desigual (e de que essa sociedade igual estaria em alguma espécie de mundo paralelo pronta para ser trazida – ou realizada – a partir das contradições da sociedade desigual, elidindo a evidência de que a sociedade igual é somente o conjunto das relações igualitárias que se traçam aqui e agora por meio de atos singulares e precários).

6 – A ideia de que existe uma (única) História (assim mesmo, com H maiúsculo) e ela tem leis (que podem ser conhecidas por quem tem a teoria e o método corretos de interpretação da realidade).

7 – A ideia de que a superestrutura da sociedade (a política, a cultura etc.) é determinada em última instância pela sua infraestrutura econômica.

8 – A ideia de que o ser humano é inerentemente (ou por natureza) competitivo e de que as pessoas se movem buscando sempre maximizar a satisfação de seus interesses (que são, ao fim e ao cabo, egotistas).

9 – A ideia de que não é possível mobilizar a ação coletiva a não ser a partir de lideranças destacadas.

10 – A ideia de que não é possível organizar nada sem (uma boa dose de) hierarquia.

11 – A ideia que é correto e necessário, em política, separar nós x eles (e todas as separações decorrentes dessa separação primordial: bem x mal, explorados x exploradores, povo x elites, esquerda x direita, socialistas x liberais, fieis x infiéis de qualquer religião ou seita, nacionais x estrangeiros, leste x oeste, sul x norte, brancos x não-brancos, heterossexuais x homossexuais etc.)

12 – A ideia da política como arte da guerra, ou como continuação da guerra por outros meios (a fórmule-inverse de Clausewitz-Lenin).

13 – O culto do conflito e a guerra como instituição permanente (e como realidade inexorável, sobretudo a guerra não-ocorrida como guerra-quente ou conflito violento, mas latente e eternamente presente nos períodos considerados de paz.

14 – A ideia de que governar é comandar (uma força, um contingente, um exército, um povo).

15 – A ideia de que a luta de classes é o motor da história (ou, pior, de que a violência é a parteira da história).

Veja-se que aqui não se fala de comunismo ou de anticomunismo, não se advoga a preferência por esquerda ou direita, nem se tenta combater o socialismo com o capitalismo (ou o liberalismo) e vice-versa. O compromisso é com a democracia e não com qualquer ideologia. Mas se você não encontrar uma escola onde os professores se disponham a assinar este compromisso, então o jeito será buscar (ou construir com seus amigos) um novo ambiente de aprendizagem sem ensino. Mãos à obra!

 

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