Administrar o espírito é matar o espírito

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Administrar o espírito é matar o espírito

Espirito

Um depoimento pessoal

“Longa é a noite que nunca chega ao dia”

Shakespeare, em Macbeth

Duas investigações (às quais continuo me dedicando) avançaram em paralelo: sobre redes e sobre democracia. As duas surgiram na segunda metade da década de 1990, quando tomei contato com o conceito de capital social (ao qual fui levado em razão do meu trabalho teórico e prático de desenvolvimento local, que começou em 1993).

Enquanto elaborava o meu livro Capital Social (2001), tudo foi ficando mais claro. Devo dizer que as investigações sobre redes abriram para mim – e acho que para muitos que interagiram comigo a partir, sobretudo, de 2008 – novas e insuspeitadas visões sobre o mundo. Comecei a refazer todos os conceitos sobre a sociedade, o desenvolvimento, a política e o mundo globalizado (na verdade glocalizado), à medida que me inteirava dos avanços da nova ciência das redes (surgida, praticamente, na virada do século).

No final de 2008 foi fundada a Escola-de-Redes e a partir daí tudo mudou (quase todas as pessoas que depois vieram a trabalhar comigo, as conheci na Escola-de-Redes e as conversações recorrentes com muitas dessas pessoas configuraram um novo ambiente de pensamento e ação inovadores: uma espécie de mente, que antes não havia, se conformou temporariamente). Tudo isso contribuiu, algum tempo depois, para a gestação de uma nova abordagem (social) da democracia.

Após o surgimento da Escola-de-Redes, em 2008, vários percursos pessoais se sinergizaram durante algum tempo. Depois, porém, aqueles emaranhados, em boa parte, se desfizeram, quando os fluxos interativos da convivência social ficaram confusos (notadamente a partir de 2014). Sobreveio uma espécie de noite da inovação. Muitos dos conceitos-sementes, usinados naquele período, aparentemente se perderam, mas, na verdade, penso que viraram esporos, soltos no espaço, que ainda não caíram em terreno fértil.

No Facebook e em outras mídias sociais alguns de nós, que caminhamos juntos, nos envolvemos em discussões estiolantes com fantasmas de uma época que já pensávamos superada. Agora compreendo que a tal noite da inovação foi uma volta do passado, uma espécie de ressaca: não, as coisas não andam para frente o tempo todo (se é que existe frente).

A regressão foi tão forte que nos arrancou de onde estávamos. E aqui nos encontramos agora, ainda nos arrastando na escuridão, tendo que rediscutir noções dos séculos passados com pessoas que não têm nada a ver com o que nos ocupava, com seguidores de doutrinas autoritárias (querendo defender seus mestres), com torcedores que se engalfinham (querendo promover seus líderes), com gente que não se inquietou com nenhum dos problemas que nos desafiava e que, para lembrar Saint-Exupery (1939), em Terra dos Homens, quer construir “sua paz tapando com cimento, como fazem as térmitas, todas as saídas para a luz”.

Essa noite está sendo longa. Mas ela também vai passar.

Não adianta, porém, tentar organizar nada para salvaguardar qualquer patrimônio. É inútil, absolutamente inútil, para fins inovadores, codificar uma doutrina, elaborar um credo, criar uma corrente ideológica ou mesmo fundar uma escola de pensamento para as pessoas seguirem. E depois querer treiná-las na reprodução de um conteúdo que, algum dia, foi inovador. Ou querer iniciá-las, quer dizer, ordená-las para que elas se tornem aptas e reproduzir uma ordem pregressa. No momento em que você faz isso é sinal de que toda inovação já se esvaiu.

Vejam Krishnamurti: depois de décadas de peregrinações e pregações pelo mundo, quantos krishnamurtianos vocês conhecem que foram capazes de dizer qualquer coisa nova? E olha que ele (K.) reprovava tudo isso e, mesmo assim, lançaram duas fundações e oito escolas em seu nome, várias editoras, numerosos sites e outros instrumentos para, supostamente, desenvolver seu pensamento: e o resultado foi… nada!

Olhem o maluco beleza Osho: quantos sannyasin vocês conhecem que foram capazes de levantar uma provocação semelhante as que ele, Bhagwan Rajneesh, fez durante sua curta vida? Praticamente nenhum.

Acompanhem o Humberto Maturana (que ainda vive): depois que ele formulou as bases do seu disruptivo pensamento, no início da década de 1990, quantos de seus seguidores e alunos acrescentaram alguma coisa relevante à maravilhosa visão que ele desenvolveu? Nenhum também (aliás, nem ele mesmo).

Poderíamos ficar aqui listando exemplos de vários pensadores inovadores, cujos seguidores não conseguiram inovar. Quem inova não é quem segue. É quem desvia, desvaria, e nos seus incertos e insensatos caminhos, recria (quer dizer, cria).

Administrar o espírito é matar o espírito. Mas não é o espírito que deve ser morto e sim, justamente, os inovadores que algum dia se deixaram levar pelo espírito da liberdade, pelo vento interativo que soprou e ninguém soube de onde veio e para onde foi. Se o inovador não for morto por nós, se quisermos espichá-lo, prorrogá-lo, recodificá-lo para aproveitar seu pensamento original e redecorá-lo adaptando-o aos nossos propósitos, sua inovação não frutificará além dele.

Por isso não vou codificar uma doutrina, nem fundar uma seita. Sinto muito. Se você repetir o que eu falo ou tentar reproduzir o modo como eu penso já estará no caminho errado. Você deve pensar com a sua própria cabeça (e com a mente coletiva do emaranhado composto pelas pessoas com as quais convive e interage).

Não quero formar uma nova elite de pessoas que me tomem por mestre (muito menos manter um sodalício de discípulos que achem que sempre tenho razão). Eu só tenho razão para mim.

Minha organização é uma não-organização, não tem porta de entrada, nem de saída. Minha organização é uma rede móvel, aberta e temporária de pessoas que se sintonizam: enquanto se sintonizam. Ninguém precisa saber o que sei para caminhar junto comigo (durante o tempo em que isso for possível): não sou cognitivista, não reproduzo comportamentos acadêmicos próprios do platonismo, não ensino nada, apenas interajo, quer dizer, aprendo-junto, sabendo que as interações não são instrutivas.

Não há transfusão de conhecimento, nem de consciência. Se alguém – que não sou eu – quer lhe transformar em paciente de ensinagem, fuja. Fuja enquanto é tempo.

 

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